Arles: uma experiência decepcionante

No último post eu contei que estávamos passando uns dias na Provence Francesa por causa de uma conferência. Nós passamos por Avignon, Arles e Marseille, e em breve farei post específico de cada uma das cidades, com pontos turísticos e tudo o mais (como sempre).

Mas hoje o post é diferente. Eu não costumo fazer esse tipo de post, mas dessa vez eu acho que a ocasião pede. Antes de ir a Arles eu fiz aquela pesquisa clássica sobre a cidade, o que ver, o que fazer, o que comer… e, a grande maioria dos posts, eram de pessoas que estavam conhecendo a Provence de carro e fizeram um bate e volta em Arles. Esses posts contavam com inúmeros elogios a cidade, aos seus Patrimônios e sua história, até porque Arles é um dos principais destinos do sul da Franca. Lendo esses posts eu percebi que a cidade é pequena, mas fiquei empolgada com tudo que poderia ver e aproveitar.

Infelizmente o que encontramos foi bem diferente disso. Os pontos turísticos são, realmente, muito interessantes e eu vou fazer um post pra falar disso logo logo. Mas a cidade nos surpreendeu negativamente. Minha intenção aqui não é advogar contra a cidade ou desanimar os possíveis visitantes. No entanto, dado que minha experiência foi bem diferente das outras que você pode encontrar pesquisando sobre a cidade, acho que cabe contar o que passamos por lá em 5 dias no final de março. Talvez tenha sido a época, talvez nós ficamos tempo demais e assim vimos um pouquinho de uma outra realidade… E, antes que você pense que eu tive um baita azar e to aqui detonando a cidade por nada, preciso te contar que as outras pessoas com quem conversei também não gostaram nem um pouco de passar a semana por lá (e ficaram se perguntando porque diabos foram fazer uma conferência lá).

Mas porque eu não gostei de Arles? Vamos por itens, pra facilitar:

Desrespeito: depois de caminhar por várias partes da cidade e sair do roteiro batido do turismo, eu pude perceber que Arles é uma cidade predominantemente masculina. Muitos homens na rua, caminhando a esmo, sozinhos ou em grupos, sentados nos cafés, fazendo comentários nojentos pras poucas mulheres, lançando beijinhos, olhando como se nunca tivessem visto uma mulher na vida. Nojento define. E antes que pensem que isso é paranóia minha, até os homens com quem conversei tiveram essa mesma sensação, mesmo caminhando por trajetos diferentes e em horários diferentes.

Sujeira e descuido: sabe aquela imagem de cidade pequena e antiga, cheia de ruelinhas charmosas aonde você pode se perder e mesmo assim terá um agradável passeio? Não é Arles. Apesar de ser uma cidade antiga e cheia de história, as ruelinhas de Arles são sujas, mal preservadas e são um verdadeiro campo minado de cocôs de cachorro (grande população de cães + povo que não ajunta a sujeira). Então ao invés de ruelinhas charmosas, você tem becos sujos e assustadores (+ homens nojentos = combo do terror). É claro que próximos dos pontos mais importantes pro turismo, tudo é um pouco mais ajeitadinho, mas é quando você sai um pouquinho dessa rota que você vê uma realidade diferente. Não tenho muitas fotos dessa parte porque meu instinto me dizia pra correr, mas essa aqui embaixo é só pra exemplificar (e fica numa região super central da cidade).

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Noites desertas: a cidade tem bastante opções de restaurantes mas, magicamente, quase nenhum deles abre a noite. Imagine que, nessa situação, as ruas também ficam desertas (o que não contribui em nada pra melhorar o aspecto geral da cidade). Por consequência, os poucos restaurantes que abrem ficam rapidamente lotados e, nesse caso, você tem que passar por um segundo desapontamento. Sanduíche de supermercado é a solução.

Infraestrutura de turismo:  a parte turística da cidade é bacana e é possível fazer tudo a pé, o problema é quando você quer ir um pouquinho mais longe. Pra começar, nessa época do ano a cidade não disponibiliza transporte pra cidades próximas e igualmente turísticas, como Baux de Provence. Mesmo pros pontos de Arles que são um pouco mais distantes, como o Museu da Camargue, as opções de transporte público são terríveis (uma única linha que passa umas 3 vezes por dia só).

Bom, é aqui que entra a história da moita, que eu relatei brevemente no meu último post, que foi o ponto alto de desgraça da minha semana (ou ponto baixo). O museu da Camargue fica no meio do nada, e o ônibus te larga na beira da estrada, onde você enxerga o museu um pouquinho afastado. Visitei rapidamente o museu pra poder pegar o próximo ônibus de volta a Arles (caso eu perdesse eu teria que esperar 4 horas) e, assim como na chegada, você pega o ônibus na beira da estrada. Bem, vocês podem imaginar que depois de uma semana vivenciando um desrespeito sem igual, eu não estava afim de ficar de pé numa beira de estrada nessa parte do mundo. Então eu achei uma moita meio seca e me sentei lá dentro, meio escondida. Na moita eu tinha uma boa vista da estrada, e ali eu fiquei esperando 15 minutos até o ônibus aparecer (e comendo um pãozinho que eu tinha no bolso, porque né, agindo normalmente). Nem preciso dizer que pulei pra fora da moita na rapidez e acenei loucamente pra garantir que o motorista me veria, como se fosse possível não me perceber no meio daquele nada.

Touradas – bom, as touradas ainda são permitidas na França e fazem parte da tradição de Arles. Aliás, entre 3 e 6 de abril acontece a Feira de Arles, quando a cidade ficará minada de turistas por conta das touradas (e, por conseguinte, com outra cara). Mas bem, eu acho isso um absurdo e só me fez desgostar ainda mais da cidade.

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As touradas acontecem no Anfiteatro Romano – ali está o cartaz desse ano

Resumindo: eu me senti mal em Arles. Me senti desconfortável e insegura por estar passeando sozinha. Deixei de visitar algumas partes da cidade por medo. Acredito que, se tivéssemos feito um passeio de 1 dia por lá só nos pontos principais minha visão da cidade seria bem diferente.

Por essas e por outras, que a gente ficou com a sensação de que a Provence é uma região pra conhecer de carro mesmo. Depender do transporte público, principalmente fora da alta temporada, é realmente uma cilada. De carro você pode se estabelecer em uma cidade maior e com mais possibilidades, e partir para conhecer essas cidades menores todos os dias. E também ficamos com a sensação de que a região deve ser outra no verão. Cheia de turistas, com mais infraestrutura pro turismo, com restaurantes abertos… Eu realmente acredito que Arles seja melhor no verão, mais convidativa e alegre, como é possível perceber pelos posts feitos sobre a cidade de outras pessoas (entre julho e setembro).

Arles é uma cidade cheia de história, cheia de coisas interessantes e, mesmo assim, todos os dias ela insistia em nos surpreender negativamente. Acho que de todas as cidades que visitei, Arles é a única que não faço questão nenhuma de voltar e que parti com alívio (e com um trem com 40 min de atraso, só pra fechar com chave de ouro).

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