Como alugar um apartamento em Lausanne III: sobre cagadas imobiliárias

Nem tudo são flores nesse mundo imobiliário suíço. Além da dificuldade em conseguir alugar um lugar, você ainda pode acabar alugando um péssimo lugar. Antes de chegar aqui, no apartamento que vivemos hoje, nós cometemos uma grandessíssima cagada. Feio escrever assim, mas é a verdade: acho que nenhuma outra palavra pode descrever melhor.

No final de 2013 o nosso contrato de sublocação acabou e nós tivemos que procurar outro apartamento pra viver. Eu ainda estava no Brasil e o Henrique começou a visitar alguns apartamentos (alguns melhores, outros nem tanto) entregar alguns dossiês, aquele esquema todo. O tempo começou a apertar, a urgência começou a bater, até que ligaram e ofereceram um dos apartamentos que o Henrique visitou: um apartamento meio esquisito, precisamos admitir, mas um apartamento muito bem localizado e com um preço ótimo.

E aí você TEM que achar um lugar pra viver, você está na NECESSIDADE, e te oferecem um apartamento….a gente aceitou né. De cara o apartamento era meio esquisito, mas ficamos com medo de pagar de nojentinhos e depois ficar pagando diária em hotel por não ter onde viver (ou morar debaixo da ponte mesmo).

Começamos a pagar o aluguel no mês de dezembro, mas nos mudamos efetivamente pra lá no dia 31. E aí começaram os problemas. Eu não vou me detalhar muito nisso (em respeito à pessoa que está vivendo lá agora), mas podemos dizer que somente com o apartamento “pelado”, é que você tem uma noção do real estado dele.

Nós sentimos que o antigo locatário foi muito sacana com a gente, escondendo grande parte dos problemas do apartamento com mobília, tapetes e cortinas. Eu já comentei antes que você não tem muita liberdade pra futricar e olhar com detalhe, e pessoas mal intencionadas podem se aproveitar desse ‘modelo de visitas’ pra mascarar alguns problemas. E você só vai saber depois que o contrato está assinado.

Nós encontramos uma série de problemas no apartamento, mas problemas que poderiam ter sido resolvidos com um pouquinho de dedicação e dinheiro. Alguns desses problemas diziam respeito ao proprietário resolver, mas entramos em contato e recebemos um “estaremos avaliando o seu problema”, “estaremos repassando para a equipe responsável”, “estaremos fazendo você de idiota até que você esqueça e desista”. Isso é um aviso pra quem pensa que descaso existe só no Brasil.

Mas enfim, digamos que estes pequenos problemas poderiam ter sido resolvidos. E o apartamento em si até era divertido – era um corredor comprido com dois andares, me lembra algo como “morar em Amsterdam”.  Porém, o maior problema não estava em nossas mãos resolver: a vizinhança. Pois então, eu escrevi que o apartamento era bem localizado, e é mesmo – perto de todas as comodidades, com acesso fácil de ônibus e de metrô, perto de pontos turísticos bacanas e tudo o mais. Durante o mês de dezembro eu fui lá várias vezes conferir correspondência, levar nossas coisas, e nunca percebi nada de anormal. Se você for lá agora, você também não vai perceber. Só que a partir do momento em que nos mudamos pra lá, e que efetivamente estávamos morando lá, foi que nós percebemos que a vizinhança era péssima. Ótima localização, péssima vizinhança.

A partir dessa experiência, nós começamos as buscas por um novo apartamento, que eu relatei nesse post aqui. A busca por um apartamento aqui pode durar meses, e a perspectiva de continuar vivendo no ‘muquifo’ por muito tempo já estava me deixando um pouco desesperada. Graças a Deus, em 12 dias nós conseguimos um novo apartamento. Sim, é milagre mesmo! No dia 14 nós assinamos o contrato e marcamos nossa mudança pro dia 27.

Mas e agora, o que fazer com o muquifo?

Aqui no cantão de Vaud existem datas pré-estabelecidas no ano em que é possível cancelar o contrato (acho que são 3 datas padrão, e a imobiliária deve escolher pelo menos uma). Na imobiliária do muquifo, essa data é 31 de março e você precisa avisar a imobiliária com 3 meses de antecedência. No nosso caso, nós perdemos a data – e mesmo que não tivéssemos perdido, acho que não teríamos pedido o cancelamento. A busca por apartamentos aqui pode levar meses, e se você pede o cancelamento você tem que sair, tendo arranjado outro lugar a tempo ou não.

A outra opção, para deixar o apartamento em qualquer data, é encontrar alguém que queira ficar com o seu contrato. Nós enviamos uma carta para a imobiliária avisando da nossa intenção de deixar o apartamento e de encontrar alguém pra assumir o nosso contrato. Assim, a imobiliária publicou um anúncio no site e nós, os locatários, organizamos as visitas pras pessoas interessadas.

Uma semana antes de realizar as visitas nós começamos um processo de limpeza/melhoramento no muquifo, pra deixar pra pessoa que entrou lá um lugar um pouco melhor pra viver (fora tudo que já havíamos feito antes): estilo faxina pesada e pequenos consertos. Só pra deixar claro: isso devia ter sido feito pelo proprietário.

Deixamos o apartamento bem jeitosinho e realizamos as visitas. Nós simplesmente colocamos no anúncio as datas e horários das visitas coletivas, mas algumas pessoas nos ligaram querendo visitar antes (desespero define). A ideia de um monte de gente desconhecida entrando na sua casa enquanto você ainda mora lá é um pouco estranha, mas na prática foi tudo muito tranquilo. Não tivemos nenhum tipo de problema, e acabamos até tendo momentos agradáveis papeando com as pessoas que iam lá visitar. Visitas feitas, as pessoas que se interessaram entraram em contato com a imobiliária, e a imobiliária escolheu o novo locatário – que só conhecemos no dia da entrega das chaves.

Só pra ressaltar a minha clarividência em considerar o lugar perigoso, no dia da entrega das chaves encontraram o apartamento arrombado –  alguém quebrou a janela e entrou. Quando isso aconteceu nós já havíamos nos mudado e deixado o apartamento limpo e pronto pra ser entregue. Então, o desgraçado encontrou um apartamento completamente vazio (bem feitooooo). E tudo isso bem embaixo dos olhos da polícia! Então, esse é outro aviso pra quem pensa que esse tipo de coisa só acontece no Brasil.

Dicas pra não entrar em furadas:

É claro que tudo isso depende daquilo que você procura, ok? Se você quer viver perto do agito, dos bares e festas, vá em frente, viva no centro! Você vai adorar. Agora se você quer viver em um lugar mais tranquilo e seguro, é melhor ficar atento.

* Run to the hills: o centro da cidade é cheio de comércios, restaurantes, bares, festas… e por isso a circulação de pessoas e carros é muito maior. Eu sei que parece muito tentador morar perto de tudo, mas nem sempre é uma boa opção. Pesquise! Visite, caminhe pela região em diferentes horários do dia…

* Porém, não se iluda: alguns bairros afastados também tem núcleos de comércio e entretenimento onde circulam muitas pessoas. E onde circulam muitas pessoas, circulam boas e más pessoas. Assim como alguns bairros perto do centro são super residenciais: pesquise.

* Preste atenção na vizinhança: enquanto você se encaminha pra visita, preste muita ação na vizinhança. Repare principalmente se é um local bem residencial (quintais, gramados, apartamentos no térreo, famílias com crianças e velhinhos). Se for, a chance de ser um bom local de se viver é muito maior.

* Preste atenção no estado do apartamento: muito provavelmente o apartamento será entregue pra você exatamente no estado em que você visitou (se tiver algo a ser feito, como pintura, será dito no anúncio). Não pense que a imobiliária vai entrar lá entre a saída do antigo locatário e a sua entrada e vai fazer uma faxina, uma manutenção… Então, se estiver ruim agora, estará ruim quando você entrar pra morar tbm.

* Desconfie de aluguéis muito baratos: se for muito barato, é porque tem algum problema. Não estou dizendo que lugares bons são sempre caros. Mas quando a esmola é demais, o santo faz bem em desconfiar.

* Seja atento na hora da visita: não se acanhe e olhe bem o apartamento. Não seja indiscreto e mexa nas coisas do locatário, mas seja bem cuidadoso e repare em tudo. Repare no estado das paredes, do banheiro, preste atenção na quantidade de ruídos, observe o tipo das janelas, se há calefação, se há janela/ventilação no banheiro. Qualquer ‘obra’ ou reparo que você tiver que fazer depois sairá do seu bolso.

* Peça a opinião das pessoas que você conhece com relação a localização. Colegas de trabalho, colegas da faculdade… Peça pra alguém que conhece a cidade te dar umas dicas de onde é/não é bom de morar. Mas entenda que são opiniões. Eu odiei morar no centro. Certamente, deve existir alguém que ama morar no centro.

* Não superestime sua capacidade de viver na adversidade. Se você não gostou do apartamento, não aplique. Não dê uma de pão duro e escolha o lugar mais barato pensando que depois você dá um jeito. Nada pior do que odiar voltar pra casa.

Um pouco difícil pra quem não conhece a cidade não é mesmo? Pois pense que, mesmo depois de estar 1 ano aqui, nós conseguimos fazer essa cagada! Então, atenção redobrada porque existe buraco brabo na Suíça também!

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Como alugar um apartamento em Lausanne

Como alugar um apartamento em Lausanne II: dicas

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