Resenha: No Ar Rarefeito

noarrarefeitoTítulo: No Ar Rarefeito

Autor: Jon Krakauer

Ano: 1997

Editora: Companhia das Letras, 1997

Sinopse: No começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, a 8848 metros de altitude. Ele não dormia há mais de 56 horas e estava zonzo pela falta de oxigênio. Ao se voltar para começar a longa e perigosa descida, outras vinte pessoas ainda se arrastavam em direção ao topo. Ninguém percebeu que o tempo ameaçava piorar. Seis horas depois, mil metros abaixo e exposto a um vento terrível, Krakauer finalmente chegou a sua barraca e ali se estatelou, congelando, sofrendo alucinações advindas da exaustão e da hipoxia. Mas estava a salvo. Na manhã seguinte ficou sabendo que seis de seus companheiros de escalada não tinham conseguido voltar ao acampamento e tentavam desesperadamente sobreviver debaixo da tempestade. Quando o tempo por fim melhorou, cinco deles estavam mortos, e o sexto tinha as mãos e o rosto quase completamente comprometidos pelo congelamento. No Ar Rarefeito é um relato impressionante sobre a temporada mais trágica da história do Everest. Contratado pela revista Outside para fazer uma reportagem a respeito da crescente comercialização da montanha, Krakauer, alpinista experiente, foi ao Himalaia como cliente de Rob Hall, o guia de montanha mais respeitado do mundo. Nascido na Nova Zelândia, 35 anos, Hall escalou o Everest quatro vezes entre 1990 e 1995, e nesse período levou 39 pessoas até o topo. Em 1996, subindo a montanha ao lado do grupo de Hall havia uma outra expedição, guiada por Scott Fischer, um americano de força e determinação lendárias que em 1994 alcançou o pico sem oxigênio suplementar. Mas nem um nem outro sobreviveram à tempestade traiçoeira do dia 10 de maio. Krakauer conta a história e faz uma reflexão sobre o encanto avassalador que o Everest exerce sobre as pessoas – inclusive ele mesmo -, levando-as a arriscar a vida, a ignorar os temores dos entes queridos e a se aventurar numa tarefa duríssima e caríssima. Escrito com emoção, mas sem perder de vista a objetividade, No Ar Rarefeito é um depoimento tocante, um livro que se lê de um fôlego só e nos faz pensar no sentido da vida e no poder por vezes terrível dos sonhos.

Minha opinião:

No Ar Rarefeito, assim como O Nome da Rosa e  Enterrem meu Coração na curva do Rio, é um marco da minha adolescência. Eu li por recomendação do meu tio (aliás, o livro é dele) e passados mais de 10 anos dessa experiência, ler novamente esse livro só reforçou o porque ele merece um destaque todo especial na minha história com a leitura.

Eu nunca fui, e continuo não sendo, uma entusiasta do alpinismo ou coisas do gênero. Mas então como você pode gostar tanto desse livro? Bom, acho que são duas coisas principais que eu posso destacar: esse livro retrata um acontecimento real, e muito triste; e, ao descrever toda a operação por detrás de uma escalada ao Everest, fez com que eu aprendesse tanta coisa interessante e que eu não fazia a mínima ideia.

Ler sobre um acontecimento real, como esse, e contado por alguém que estava lá, que acompanhou tudo de muito perto, é uma experiência muito diferente do que ler outros gêneros literários. Essa proximidade toda faz da leitura uma experiência diferente, capaz de mexer com o leitor de uma forma bastante pessoal.

…logo percebi que escalar o Everest dizia respeito sobretudo à capacidade de suportar dor.

Quando pensamos em uma ‘escalada ao Everest’, nós (pessoas não familiarizadas com alpinismo), pensamos em muita neve, muito frio, pouco oxigênio… e basicamente isso. A gente simplesmente não tem noção de tudo que está por trás de uma escalada dessa magnitude. E o livro esmiúça as expedições ao cume do Everest de forma bem detalhada. Começando por apresentar o trabalho de algumas empresas, que por um valor expressivo levam pessoas comuns (com o mínimo condicionamento) até o topo do Everest – a chamada comercialização da montanha. O autor vai narrando toda a aventura, desde o momento em que se junta a uma dessas expedições com o intuito de escrever uma matéria para a revista Outside. Ele relata o trajeto até o acampamento base, dificuldades advindas de questões simples de higiene e saneamento, e como se desenrola o cotidiano e a organização dos acampamentos situados no caminho para o topo: alimentação, acomodação, aclimatação, os males gerados pelo frio e pela altitude (de espantar).

A 6400 metros, zonzo de calor, topei com um grande objeto embrulhado em plástico azul, ao lado da trilha. A massa cinzenta, entorpecida pela altitude, levou um ou dois minutos para compreender que aquele objeto era uma corpo humano. Chocado e perturbado, fiquei ali olhando o embrulho vários minutos. Aquela noite, quando perguntei a Rob, ele disse que não tinha muita certeza, mas achava que a vítima era um sherpa que morrera ali três anos antes.

Essa situação descrita por Krakauer, não só não mudou, como também piorou, dado ao acréscimo dos cadáveres de 1996 até agora. Pesquisando na internet, descobri que alguns cadáveres já são considerados pontos de referência para os alpinistas. Isso porque, principalmente acima dos 8000 metros, os resgates são impossíveis: as pessoas que chegam ali estão em tamanho estado de exaustão que estariam se pondo em risco ao tentar remover estes cadáveres.  Segue matéria com imagens, e outra aqui.

Pouco aquém da borda desse abismo, na beirada ocidental do colo, estavam as barracas do acampamento 4, espalhadas sobre um trecho de chão nu, rodeadas por mais de mil cilindros usados de oxigênio.

A remoção do lixo também é dificultada pela altitude. O lixo gerado pelas expedições está se acumulando no Everest desde a década de 50. O autor relata algumas iniciativas para lidar com esse problema (que também fica cada vez pior – matérias aqui e aqui) como o pagamento de bônus para os sherpas por cada cilindro retirado da montanha.

Resumindo: Como diz a sinopse, é livro pra ler de um fôlego só. O livro é sensacional, mas acho que muito melhor do que dizer ‘o que eu extrai dessa leitura’ é dizer: leia, com certeza você vai extrair algo dessa leitura também. Quando você chega lá no final, independente da opinião que você forma a respeito de tudo o que leu, você vai ter muito a refletir. Leitura recomendada com toda a certeza.

* Me lembrei de uma palestra que eu vi, um bom tempo atrás, do Luciano Pires, sobre seu livro ‘O Meu Everest‘ – palestra incrível. Aliás, já estou de olho nesse livro.

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