Resenha: O Nome da Rosa

onomedarosaTítulo: O Nome da Rosa

Autor: Umberto Eco

Ano: 1980

Editora: Record, 1986

Sinopse: Num mosteiro da Itália Medieval, o assassinato, em circunstâncias insólitas, de sete monges em sete dias e sete noites desafia o extraordinário talento dedutivo do sábio franciscano Guilherme de Baskerville. Um livro de leitura apaixonante, que se revela também como uma crônica da vida religiosa do século XIV e uma fascinante discussão sobre os destinos do homem. O Nome da Rosa é romance de estréia de Umberto Eco, um dos mais importantes teóricos da comunicação da atualidade.

Minha opinião:

Eu criei esse blog pra poder falar de livros como ‘O Nome da Rosa’. Pra poder escrever aqui sobre esses livros e assim dizer pras pessoas: leiam, leiam!!!

Eu li ‘O Nome da Rosa’ quando tinha uns 13, 14 anos, e desde aquela época sempre o considerei um dos meus livros favoritos (e que, malandramente, me ensinou a escrever com suco de limão para deixar mensagens secretas – somente decifráveis com ajuda do fogo). Os anos passaram, muitos outros assuntos entraram e saíram da minha cabeça, e eu resolvi reler para resenhar, e lendo uma segunda vez, só consigo gostar cada vez mais.

‘A beleza do cosmos é dada não só pela unidade na variedade, mas também pela variedade na unidade.’

A história toda se passa em 7 dias, no ano de 1327,  e é contada por Adso de Melk, um noviço beneditino que acompanha Guilherme de Baskerville e o serve de escrivão. Os dois chegam a Abadia cluniacense (da qual não sabemos o nome nem a localização) para um encontro entre Franciscanos e a comitiva de Avignon.  Um pouco antes da chegada das comitivas, começa a se desenrolar uma sucessão de mortes de monges, e Guilherme é encarregado de descobrir o assassino, de forma que esses crimes não abalem a imagem da abadia perante seus convidados. Adso descreve os acontecimentos e a vida na abadia conforme as horas litúrgicas.

‘… apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos miríficos e formidáveis a que na juventude me foi dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração.’

É ao redor desses dois ‘acontecimentos’ que se desenrola a história do Nome da Rosa: o encontro das comitivas na abadia cluniacense; e as mortes misteriosas dos monges. Assim como são apresentadas duas grandes discussões teológicas: a pobreza e o riso.

A discussão sobre a pobreza é o motivo do encontro entre franciscanos e a comitiva de Avignon. Os Franciscanos defendiam que Cristo, para dar exemplo de vida, e seus apóstolos, nunca haviam possuído nada, e que esta era uma verdade sã e católica, justificando sua renúncia à propriedade de todas as coisas. Porém, ao discutir a pobreza de Cristo, discute-se se deve ser pobre a Igreja –  onde pobreza não significa somente abdicar-se de posses, mas abandonar o direito de legislar sobre as coisas terrenas. Essa discussão simples tem consequências políticas graves: coloca em jogo a influência da Igreja sobre o Estado.

A outra grande discussão encontrada no livro é sobre o caráter lícito do riso, alegando-se que Jesus jamais teria rido, pois o riso é sinal de imbecilidade e incentivo a dúvida. Nesse caso, entramos também no campo filosófico, acompanhando extensas argumentações sobre o tema.

O livro narra a vida na abadia, sua organização, as atividades diárias (seus pecados), e traz o panorama religioso da época: as crenças, a ação da Inquisição, o combate as diversas formas de Heresia (com destaque para a história de frei Dulcino)…

‘Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro, não devemos perguntar o que ele diz, mas o que quer dizer…’

Mas esse livro também tem um lado objetivo, onde acompanhamos toda a construção do raciocínio de Guilherme e Adso para chegar ao autor dos crimes – outra parte sensacional.

‘Porque em todo crime cometido para possuir um objeto, a natureza do objeto deveria nos fornecer uma ideia, ainda que pálida, da natureza do assassino.’

O Nome da Rosa não é aquele livro que você lê só por distração, por lazer. É aquele livro que te deixa a sensação que, tendo aberto a tua mente pra o que ele diz, ela nunca mais vai voltar ao seu estado anterior. Independente de religião, de crenças pessoais, esse é o tipo de livro que faz a gente PENSAR. Além de tudo isso, o livro é fabulosamente bem escrito, e é muito agradável acompanhar a comunicação de ideias simples de uma forma tão inteligente.

‘…quase inebriado, gozava então da sua presença nas coisas que via, e através delas desejava-a, satisfazendo-me à vista delas. E, no entanto, sentia uma dor, porque ao mesmo tempo sofria por uma ausência, mesmo sendo feliz com tantos fantasmas de uma presença.’

Preciso dizer que, apesar de todo o meu amor, a leitura é extremamente pesada. É preciso ler com calma e atenção. Se você não curte acompanhar uma discussão teológica/filosófica, nem comece. Acompanhamos discussões que duram páginas, e algumas partes estão em latim (sem tradução). Apesar de ter ação (por conta dos crimes), elas não são exatamente o foco do livro. As vezes se passam vários capítulos sem que se retome a caça ao assassino. Preciso aqui salientar que a edição que li é de 1986 (essa da capa do início do post). Procurei uma versão mais recente pra verificar se há alguma diferença, mas não consegui encontrar aqui nas livrarias de Caxias.

Extra:

Por coincidência, comecei a ler esse livro logo após o término da Busca do Graal, do Bernard Cornwell. Que feliz coincidência! Os fatos descritos no ‘O Nome da Rosa’ acontecem cerca de 20 anos antes do Arqueiro, e podemos assim encontrar muitas relações entre os livros, acerca da vida na época, da posse das relíquias, da religião, da inquisição, da heresia… de forma que os dois livros se complementam: ao ler ‘O Nome da Rosa’, entendemos muito mais e de forma muito mais aprofundada o panorama religioso da época, que Cornwell explica sucintamente, o suficiente pra dar uma razão pra demanda de Thomas.

‘…os cátaros pregavam uma Igreja diferente, uma visão diferente de Deus e da moral. Os cátaros achavam que o mundo  estava dividido entre as forças opostas do bem e do mal, e tinham construído uma Igreja em que se distinguiam os perfeitos dos simples crentes, e tinham seus sacramentos e seus ritos; tinham constituído uma hierarquia muito rígida, quase tanto quanto a da nossa santa madre igreja e não pensavam absolutamente em destruir qualquer forma de poder. O que te explica porque aderiram aos cátaros até mesmo homens de mando, proprietários, feudatários. Nem pensavam em reformar o mundo, porque a oposição entre bem e mal para eles não poderá nunca ser realizada.’

A Busca do Graal: ‘O Arqueiro’, ‘O Andarilho‘ e ‘O Herege‘.

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