Suíça: Chemin de Crêtes du Jura (etapa 11)

O Chemin de Crêtes du Jura (ou Jura Crest Trail) foi o nosso último hiking desse verão. A intenção era fazer uma trilha perto de Interlaken, mas a ideia de ficar mais de duas horas num trem, pra depois fazer uma trilha, pra depois estar morto de cansado e ter que encarar mais 2 horas de trem sempre desanima. Então eu deixei o Henrique decidir qual seria a trilha da vez, e ele me apareceu com essa proposta.

O caminho de ‘cristas’ da onda do Jura é uma trilha em arco que vai de Dielsdorf a Nyon (é quase de Zurique a Genebra). Segundo o Wanderland essa trilha é um clássico na categoria longa distância aqui na Suíça, e a sinalização do caminho começou lá por volta de 1905.  A trilha como um todo tem cerca de 310 km divididos em 17 etapas.

Nós escolhemos a etapa 11, que vai de St-Croix até Vallorbe, bem próxima da fronteira com a França. Essa etapa tem 24 km e a caminhada dura cerca de 7h. É uma trilha fácil, mas fisicamente difícil, por ser muito longa.

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Fonte: Wanderland.ch

De fato, a trilha é muito tranquila. O início é de subida leve, com uma pequena parte mais íngreme quando se chega no Le Suchet. Nós passamos por inúmeros rebanhos, e nos chamou a atenção os cartazes que alertavam sobre as vacas e seus bezerrinhos – já me alonguei nesse pormenor nesse outro post aqui. Por sorte (ou juízo) eles estavam sempre dentro de cercas, então nosso passeio foi super tranquilo.

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O pico do Le Suchet é o ponto mais alto da trilha, e foi ali que paramos pro nosso pique-nique. E descobrimos que deve ser um local esplêndido para o paragliding, pois estava difícil contar quantos deles estavam no céu. A vista para o lago de Neuchâtel é ótima, mas o Léman e suas montanhas também dão o ar da graça.  E, amigos, a partir daí é pura descida até Vallorbe. O caminho é tranquilo, a descida continua passando por inúmeros rebanhos, tudo muito bem, muito civilizado, muito bonito, sempre muito bem sinalizado.

paragliding

lesuchet

montblanc

Mas é longa essa trilha viu. No início o Henrique me disse que eram 20 km, quando estamos no meio do passeio ele me disse que eram 24 km… no final do dia entre tudo que caminhamos o celular marcava 27 km. Eu me senti fazendo uma romaria, tava até pensando que eu paguei os pecados e tava pegando crédito pros próximos. Em algum momento lá no meio do nada eu já estava até cantando:

Nessa longa estrada da vida…

No trajeto entre St-Croix e o Le Suchet nós até encontramos gente, principalmente próximo do Le Suchet, mas isso porque dá pra chegar ali de carro. Mas na descida, parecia que estávamos perdidos em terra de ninguém. Entre o Le Suchet e Ballaigues nós cruzamos com duas pessoas pelo caminho. Com certeza essa trilha não é uma das famosas autoroutes*….

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Mas talvez seja isso que me fez gostar do passeio. É óbvio que é ótimo conhecer lugares turísticos e dar um check em todos aqueles lugares clichês que a galera do Instagram e do Pinterest adora compartilhar. Mas também é ótimo fugir dessa loucura e aproveitar esse lado B. Esse lado que só poderíamos conhecer morando aqui mesmo. Por dois momentos nessa trilha nós encontramos cervos, inclusive baby cervos, e tivemos um momento rápido de contemplação antes que eles saíssem correndo assustados. Veja bem, isso não é algo que você vê em qualquer lugar.

Outro ponto incrível dessa trilha é passar pelos Toblerones. Antes da Segunda Guerra Mundial foram criadas linhas de defesa para impedir a passagem de tanques de guerra caso houvesse uma tentativa de invasão do país. Essas linhas são compostas de blocos de concreto de cerca de 9 toneladas cada, chamados de ‘dentes de dragão’, e mais alguns pontos fortificados. Graças ao formato dos blocos eles foram apelidados de Toblerone, e existe até uma caminhada chamada Sentier des Toblerones, que acompanha a linha de defesa de 10km entre Prangins e Bassins, também no cantão de Vaud. Nessa etapa 11 do Chemin de Crêtes nós passamos por vários Toblerones e também por algumas fortificações (acredito eu, porque eram construções muito bizarras).

toblerone

Fizemos nossa trilha em cerca de 7h20, mesmo parando pra comer. O cansaço foi inevitável, mas as unhas do dedão roxas (sim, as duas!) foram uma bela surpresa que ganhei graças aos muitos quilômetros de descida com o pé forçando a ponta do tênis! Por um momento pensei até que iria perdê-las, mas foi só o toque gótico suave que ficou e ainda vai me acompanhar por alguns meses.

Se recomendo? Não sei. Recomendo pra quem vive aqui e tá no brilho de fazer uma indiada dessas. Não tem muitos pontos no meio do caminho pra você se arrepender e pegar um ônibus, ou um funicular pra ir embora. Então o negócio é estar ciente da empreitada  e aproveitar a natureza em toda sua tranquilidade.

  • Breve reflexão: semana passada eu estava conversando com uma suíça que faz muitas trilhas e ela comentou que o povo suíço não anda muito. O país tem muitas trilhas, mas as pessoas as usam cada vez menos. Eu comentei que encontrava muitas pessoas fazendo trilhas, e ela disse que isso é válido pras autoroutes (tipo o Dent de Vaulion), que são rápidas e tranquilas de se fazer. Se isso é verdade, não sei dizer. Pensando na nossa experiência, faz sentido. Mas é algo a se observar…

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