Viagem sem glamour

Esses últimos dias foram muito agitados por aqui, principalmente porque eu recebi visitas e fui a Barcelona. E depois de toda essa agitação, eu achei pertinente escrever uma reflexão aqui: escrever um pouco sobre viagens sem glamour (ou mais precisamente, que as viagens não são puro glamour).

Vamos começar essa reflexão bem lá atrás. Quando eu era novinha eu tinha uma imagem de que a Europa era o paraíso (literalmente). Influenciada pelos comentários de pessoas que tinham viajado – o que nem era tão comum na época – eu imaginava a Europa como um verdadeiro local de sonhos. Então em 2010 eu tive a oportunidade de viajar pra Europa pela primeira vez (na base de muita economia, abrindo mão de formatura e essas coisas). E depois de 10 dias em Paris o sentimento geral foi de decepção.

Paris é decepcionante? Claro que não! A questão é que eu cheguei em Paris com expectativas tão altas, mas tão altas, que quando eu descobri a realidade eu “caí do cavalo”. E que realidade é essa? Paris é uma cidade normal, como qualquer outra cidade, com coisas boas e ruins, com vantagens e desvantagens, com prédios maravilhosos e monumentais, mas também com problemas.

paris
Paris – dezembro de 2013

Se você for uma pessoa rica e ficar só no táxi-hotel-táxi-restaurante-táxi-torre pode ser que esses problemas passem despercebidos. Mas se você fizer um turismo mais “vida real”, pegar metrô e andar muito a pé, existe uma grande chance de você enxergar esse outro lado de Paris, essa Paris real, que além de maravilhosa é uma cidade enorme e cheia de pessoas e, portanto, com problemas. Pode ser que você encare um metrô lotado, que você encontre muitos pedintes na rua (alguns deles muito incisivos e até amedrontadores), que você passe por uma rua toda pichada e fedendo a mijo (tenho uma amiga que ama Paris e, no entanto, ela sempre se refere ao cheiro de mijo da cidade). Pode ser que você passe por isso, pode ser que não.

Além disso, você precisa estar muito atento aos seus pertences: em Paris, em Londres, em NY, na Suíça… onde quer que você esteja. Os batedores de carteira estão em todos os lugares, principalmente nos mais turísticos. Já ouvimos até falar de um “golpe” em que uma turista muito bem apresentável abre um mapa na sua frente em Paris e, enquanto você se distrai pra dar uma informação, um comparsa bate a sua carteira…

Na minha primeira vez em Paris eu quase fui atropelada por um mal educado que furou um sinal vermelho perto do Grand Palais, e encontramos uma super muvuca num mercado de pulgas (um homem deitado no chão aguardando atendimento, polícia, muita gente correndo). Já na segunda vez que fui a Paris foi tudo tranquilíssimo. É uma questão de sorte – e de ter muito cuidado com as áreas da cidade por onde você transita. Em NY nós mal conseguíamos andar na rua de tanta gente, e fomos fortemente xingados por um cara visivelmente drogado dentro do metrô a troco de nada (medo). Em Barcelona não conseguíamos entrar em pontos turísticos por causa das filas gigantescas, e ficamos profundamente incomodados com as moscas (moscas brabas e abusadas) que estavam por toda parte. Em Copenhagen encontramos algumas ruas e praças tão sujas que parecia manhã pós carnaval.

copenhagen
Copenhagen – outubro de 2014

Aliás, minha primeira vez em NY também foi um pouco decepcionante. Eu não tinha grandes expectativas, mas eu também não estava preparada para o que encontrei: uma cidade tomada, dominada por uma horda enlouquecida de turistas em todos os lugares. Você sabe que não vai ser o único turista em NY (ou Paris, Londres, Barcelona) e que possivelmente você vai encontrar filas. Mas as vezes é muito mais do que isso. As vezes o acúmulo de gente é tanto que passa os limites do suportável. Você encontra filas pra tudo, você desiste de passeios por causa das filas, você anda na rua como se você estivesse numa procissão, você tem que lidar com excursões de gente mal educada te empurrando, você tem que lidar com muita gente sem noção… É tanto stress que no fim do dia parece que você foi atropelado por um caminhão. Claro que isso depende da época do ano e do local visitado, mas esteja preparado pra essa possibilidade também.

Nova York
Nova York – abril de 2014

Mas porque eu escrevi tudo isso? Pra te desanimar?

Não!

Eu escrevi tudo isso por dois motivos.

1) Tem muito brasileiro que viaja e faz um relato de sonhos. Eu até acredito que alguns realmente tiveram uma viagem de sonhos e sem percalços, mas com certeza eles foram minoria. E também acredito que ninguém quer voltar pra casa e perder tempo falando de coisas ruins. Só que tem muita gente que segue apertando na tecla de “EUA é o paraíso, Europa é um sonho”, esquece que esses lugares também tem problemas e acaba omitindo essa parte da história. Eles pintam um cenário paradisíaco, enquanto o Brasil, coitado, desce cada vez mais no conceito. Já encontramos posts que enalteciam tanto a Europa e avacalhavam tanto com o Brasil, que nos pareceu que não estávamos nos referindo aos mesmos lugares. Gente, sejamos realistas! O Brasil é cheio de problemas (e nós brasileiros sabemos muito bem disso), mas isso não significa que outros lugares também não os tenham! Vamos ser um pouquinho mais sinceros e enxergar que todos os lugares tem um lado bom e um lado ruim.

E eu, até certo ponto, gosto de comentar essas “realidades”. Justamente pra galera que tá no Brasil e segue alimentando a ideia da inferioridade e que o resto do mundo é “pura maravilha” perceber que não é bem assim que a banda toca.

barcelona
Barcelona – outubro de 2014

2) Eu imagino que, sabendo dessa realidade, as pessoas cheguem mais “preparadas” quanto ao que vão encontrar na sua viagem. Em outras palavras: é legal maneirar nas expectativas. Se você está preparado para os pequenos percalços, você não vai se decepcionar quando, por azar, se deparar com eles. E aí você tá livre pra prestar atenção só nas coisas maravilhosas da sua viagem. E você também vai viajar com uma dose extra de paciência, porque sabe o que pode te esperar lá na frente.

Mas depois de tudo isso eu preciso dizer: viaje! E viaje sem medo! Não precisa ficar amedrontado por causa dos relatos de batedores de carteira, por exemplo. Seja cuidadoso com os seus pertences, principalmente nos momentos de muvuca (tipo metrô lotado) e se informe sobre o seu destino com antecedência. Faça uma pesquisa rápida e perceba se as pessoas recomendam maior atenção em algum lugar, recomendam não se hospedar em um determinado bairro… Com um pouquinho de informação e atenção a gente passa batido por todos esses probleminhas e aproveita tudo de melhor que a cidade tem pra oferecer. Isso sem falar que tem muitas dicas na internet tbm sobre melhores horários pra fazer um determinado passeio – evitando a horda enlouquecida de turistas… ehehehe.

E bem, isso é uma reflexão baseada nas nossas últimas vivências e nas conversas que tivemos, não é uma realidade absoluta. E mesmo assim, é uma reflexão parcial, porque eu nunca fui pra Asia, por exemplo, pra dizer que isso vale pra lá também (nunca ouvi ninguém contar coisas ruins sobre o Japão, mas pode ser porque as pessoas preferiram focar nas coisas boas né?).

E mesmo tendo relatado ali em cima algumas experiências não tão agradáveis, eu certamente voltaria para todos esses lugares. Depois que eu mentalizei que todos os lugares tem seus altos e baixos, eu já não me importo com essas coisas (mas reparo). Os percalços existem, mas eu sempre tento focar em tudo que o local tem de bom, de bonito, em tudo o que eu posso aprender… e mesmo fazendo um turismo bem “vida real” eu tenho experiências maravilhosas de viagem que vou levar pra vida.

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